sexta-feira, 25 de março de 2011

Não existem exageros quando o assunto é bullying

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Se o seu filho chamasse um colega de classe que usa óculos pelo apelido “quatro olhos”, você acharia isso normal? E se a diretora o chamasse para uma conversa, alegando que seu filho está praticando bullying, você acharia isso um exagero? Provavelmente.
 O mais comum, nestes casos, é alegar que tais brincadeiras são comuns entre as crianças e que, no seu tempo, eram normais. Mas como você seria se não tivesse vivenciado isso? Esta é a pergunta que a psicóloga Ana Carina Pereira, pesquisadora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência da Universidade Federal de São Carlos (Laprev/UFSCar) faz sempre que alguém tenta minimizar as atitudes de um agressor, neste caso, um bullie. “Há a colocação de que eu, quando criança, tive e dei apelidos, agredi e fui agredido e hoje sou ‘normal’. Assim, alguns pensam que o bullying é um exagero por parte de psicólogos, pesquisadores e da mídia”, explica. 
Para a psicóloga Lúcia Williams, também do Laprev/UFSCar, esta visão reflete apenas o quanto o conceito de violência é algo que evoluiu com o passar do tempo. “No passado achávamos natural a escravidão ou explorar crianças no mercado de trabalho. As mulheres não podiam votar ou mesmo ler e trabalhar, por exemplo. Os critérios mudam com o tempo, com base no conhecimento produzido nas leis, cultura, etc.”, explica. Achar que o bullying é um exagero, de acordo com a pesquisadora, reflete uma incompreensão sobre o que isto vem a ser. “Se os profissionais, no geral, têm dificuldades de entender, o que não dizer dos pais?”.
Mas o que é bullying?
O termo, sem tradução, se refere a um fenômeno de agressividade intencional e repetitivo, tão grave que pode levar à morte – seja por suicídio ou assassinato – ou a outras sequelas como depressão, ansiedade, baixa autoestima, abandono dos estudos, para citar alguns. Pode ser uma agressão física, verbal e até mesmo virtual, quando o agressor utiliza a internet para espalhar mensagens contra a vítima. “Qualquer ato de uma pessoa para com a outra que provoque tristeza ou medo deve receber atenção” diz Pereira.
Colocar apelido no outro uma vez ou outra não é um exemplo de bullying
Segundo Lucia Williams, existem brincadeiras de bom ou mau gosto e uma brincadeira de mau gosto não é necessariamente um exemplo do fenômeno bullying. Para a especialista, faz parte do desenvolvimento saudável de uma criança brincar, zoar e provocar. “Agora, chamar uma garota obesa de ‘baleia’ inúmeras vezes, sendo que um dia alguém a empurra da escada porque ‘baleia não desce escada, baleia rola’ é um exemplo grave e verídico. Essa pessoa, hoje adulta, me relatou esse caso descrevendo o quanto esse tipo de vitimização a prejudicou e causa danos até hoje”, explica.
Para a psicóloga Paloma Albuquerque, pesquisadora do Laprev/UFSCar, atualmente a escola tem perdido o papel de orientar e estabelecer parâmetros de comportamento. “O mesmo acontece com a família, pois muitos pais estão confusos sobre como educar os filhos”.
Por exemplo, você acha que é um abuso se meter na vida do seu filho? “Se se meter quer dizer acompanhar o que acontece com a vida dele, saber aonde ele vai, o que faz, o que costuma assistir na TV, isso faz parte da boa parentagem”, explica Lucia. E, principalmente, nunca considerar que uma agressão sofrida ou praticada contra um colega é algo comum. “O fato de um pai minimizar a agressão que o filho sofre ou pratica está relacionado com as próprias experiências que teve enquanto aluno e as oportunidades que teve para aprender a valorizar a solução pacífica de problemas”, explica Pereira.
A escola também tem um papel importante na prevenção e combate ao bullying. Professores e demais profissionais devem estar engajados sobre o assunto para também não subjugar atos violentos entre os alunos. “Quando o objetivo é resolver um conflito na escola, a questão é como melhorar o relacionamento entre os alunos, e a gradação de um bullying enquanto ‘pior’ ou ‘menor’ não interessa, até mesmo porque o que começa como uma chacota pode escalar e resultar em uma ofensa mais grave”.
O que fazer diante da agressividade
E o que fazer com o agressor? “Diante de comportamentos agressivos, deve-se dar consequência ao comportamento do agressor, mas também ser oferecida orientação”, considera Paloma Pegolo. Para Lucia, há uma tendência no Brasil de “culpabilização” do bullie. “O importante nesse caso seria a prevenção, encaminhar o autor de bullying para tratamento, já que geralmente ele também é vítima de maus-tratos em casa ou de uma parentagem inadequada”.
Pegolo ressalta ainda que o bullying é um sintoma de outros problemas sociais e comportamentais.“Precisamos melhorar as instituições sociais como um todo, de forma que os direitos humanos sejam validados em qualquer contexto. Desta forma, pais e professores poderiam orientar melhor seus filhos e alunos sobre seus direitos e deveres e, assim, diminuiríamos os abusos”, conclui.
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por Marina Teles